Como diminuir a obesidade infantil em tempos de coronavírus

A obesidade é uma doença complexa, que faz parte das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). De um modo geral, podemos dizer que ela é caracterizada por um acúmulo excessivo de gordura corporal. Tal acúmulo pode levar a outras enfermidades como doenças cardiovasculares, dislipidemia, diabetes tipo 2, síndrome metabólica e alguns tipos de câncer. “A obesidade infantil é ainda mais preocupante, considerando que os hábitos alimentares e o sedentarismo na infância estão entre os principais fatores para o seu desenvolvimento, elevando a probabilidade dessa criança se tornar um adulto obeso”, explica Profª. Dra Silvia Maria Franciscato Cozzolino, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

De acordo com o Ministério da Saúde, 4,4 milhões de crianças estão acima do peso no Brasil. Mais de 2 milhões têm sobrepeso, cerca de 1 milhão tem obesidade e, aproximadamente, 750 mil crianças tem obesidade infantil grave. 

Além disso, de acordo com os últimos relatos e estudos, obesidade e coronavírus apresentam uma relação de risco. Assim, segundo a ciência, pessoas que estão acima do peso podem desenvolver as formas mais graves da infecção. 

Os desafios da alimentação das crianças

Refeições nutritivas e saborosas devem ser prioridade em todas as fases da vida, especialmente na infância. Por isso, é preciso estar atento na hora de montar os pratos das crianças, seja em casa, na escola ou nos passeios e viagens, para garantir que os pequenos tenha uma alimentação saudável. 

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Mas, a correria do dia a dia, aliada à praticidade de alguns produtos prontos industrializados, podem dar espaço a alimentos considerados ruins para o cardápio infantil. Assim, comidas gordurosas, açucaradas e cheias de corantes e outros ingredientes artificiais podem ser gatilho de problemas de saúde graves, como obesidade e colesterol.

“Em geral, é comum os pais trabalharem fora do lar e a responsabilidade pelas compras e preparo dos alimentos serem relegadas a terceiros. Assim, o isolamento social pode ser visto como uma oportunidade única para os pais avaliarem os hábitos alimentares das crianças e da própria família, verificando o tipo de alimentos preferidos, as preparações, e se existe ou não a necessidade de mudanças de hábitos”, afirma a especialista. “Caso haja a presença de sobrepeso ou até mesmo obesidade infantil, esse seria o momento ideal para reflexão sobre o tipo de alimentação da família”. 

Obesidade infantil x alimentação saudável na quarentena

Durante a infância, quando o organismo está crescendo e se desenvolvendo, a alimentação tem um papel ainda mais importante. Também, os hábitos alimentares da idade adulta estão relacionados com os do período infantil. Portanto, a promoção de comportamentos alimentares saudáveis deve ser incentivada logo nos primeiros anos, para que permaneçam ao longo dos anos.

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Porém, a boa notícia é que, com a maior proximidade da família, há espaço para abordar questões de saúde relacionadas ao consumo de alimentos mais saudáveis. “Inovar nas preparações para torná-las mais apetitosas, conversar com as crianças sobre preferências alimentares, discutir receitas para serem elaboradas em conjunto e motivá-las a experimentar novos sabores são algumas das possibilidades”, indica a doutora.

Outro problema que pode ser relevante nesse período para o ganho de peso, é a dificuldade em realizar atividade física regular, o que pode ser contornado com o estabelecimento de uma rotina, reservando um tempo para práticas de exercícios físicos monitorados, por exemplo, por meio do uso de aplicativos da internet.

Claro que não é uma tarefa fácil. Em geral, hábitos inadequados são difíceis de serem mudados. Muitas crianças e adolescentes abusam de alimentos e bebidas ricos em açúcares e gorduras, que fornecem calorias desprovidas de nutrientes, e raramente consomem frutas, verduras e legumes. Lanches são comuns, substituindo refeições. Comer à frente da TV, uso exagerado de tablets e celulares, com praticamente nenhuma atividade. “Portanto, estabelecer rotina é fundamental, pois as crianças necessitam de ter horários para poderem se concentrar em suas atividades, tanto de estudo à distância como no tempo para atividades mais divertidas, que não levem à ansiedade e, consequentemente, ao maior consumo de alimentos”, reitera.

Como aproveitar esse período para promover mudanças na alimentação 

Para reverter o cenário de obesidade infantil – ou apenas para fazer seu filho ter uma alimentação mais saudável – não dá para fugir: o exemplo deve vir de casa e partir da família. Veja algumas dicas: 

  • Disponibilizar em casa alimentos mais ricos em nutrientes, como frutas, legumes e verduras;
  • Dar ênfase a alimentos “de verdade”, como carnes, leite e derivados, cereais integrais (arroz, trigo, milho), leguminosas (feijão, lentilha, grão de bico);
  • Nas compras de alimentos, promover maior diversidade de itens, evitando uma alimentação monótona;
  • Evitar lanches ricos em gorduras e bebidas açucaradas, além de doces, bolos, sorvetes; 
  • Controlar o consumo de sal;
  • Perceber se a quantidade de alimentos oferecida está em excesso;
  • Por fim, a hidratação é muito importante. Portanto, é preciso consumir de 30 a 40ml de água por quilo de peso corporal ao dia.

Profª. Dra Silvia Maria Franciscato Cozzolino
Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP
Profª. Titular e Pesquisadora Associada do FoRC, na área de Nutrição – Minerais.

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Sobre o autor

Amanda Figueiredo
Amanda Figueiredo
Jornalista, editora sênior de nutrição, saúde e bem-estar.